À medida que o inverno avançava, envolvendo os seres e as coisas num anel de frio e mirrando os dias, cada vez mais escurecidos, Cardoso foi-se desabituando de sair.
Tomava o pequeno-almoço e deixava-se ficar de pijama e chinelos, a arrastar-se devagar pelas três assoalhadas da casa, espreitando, de tempos a tempos, com o nariz colado aos vidros fechados das janelas, o vento que abanava as copas das árvores e levantava, no ar, remoinhos de folhas secas. Que inverno ventoso e frio aquele!... De vez em quando ia até à sala, ligava a televisão e ficava a olhar, distraído, enquanto o grande relógio de parede cantava monotonamente as horas que passavam.
No fim da manhã levava a televisão para a cozinha e, enquanto petiscava qualquer coisa que a mulher lhe tinha deixado meio cozinhada de véspera, ficava a ver a telenovela brasileira da hora do almoço. Tinha-se tornado um hábito. E também a da noite, que ele costumava ver, depois do jantar, sentado no sofá da sala, em companhia da mulher. Agora conhecia os personagens e estava por dentro de toda a trama das histórias. Se lá a rapaziada da empresa soubesse que ele, agora, andava a ver telenovelas, o que não se iriam rir dele, os malandros?!..., pensou de si para si. Mas também não iam saber, que ele não estava a pensar contar-lhes tal coisa, e assim, pelo menos, distraía-se um pouco com aqueles enredos.
Depois do almoço, então, Cardoso vestia-se para ir à rua beber café. As vezes deixava-se ficar mais um pouco, sentado à mesa solitária, a ler as páginas abandonadas de um qualquer jornal. Ou encostado ao balcão, em três dedos de conversa com o empregado e um ou outro conversador de ocasião que aparecesse por ali. Mas, àquela hora do dia, na zona onde morava, não eram muitas as pessoas conhecidas que ele podia encontrar, abalado que tinham, logo de manhã, para os empregos dos quais só regressavam à noite. E as ruas e cafés do bairro ficavam todo o dia meio adormecidas, silenciosas e paradas.
Cardoso voltava para casa a respirar com esforço, oprimido por um tédio que se ia enredando nele como uma teia.
Jogava-se então a diversas coisas que tinha descoberto em casa para arranjar e fazer. Nas semanas anteriores, já tinha construído a bancada para as flores da mulher, substituído tomadas que não funcionavam e até tinha forrado, a papel de veludo, as gavetas do móvel antigo que estava no corredor. Faltava agora deitar mãos ao brinquedo para a neta - uma casinha em madeira para as bonecas - mas esse tinha tempo, ia ser um presente de aniversário e ainda faltava mais de um mês.
Com o caminhar do inverno, que juntou ao frio e ao vento uma chuva fina e afiada, começou a aborrecer-se de toda aquela trabalheira de se vestir por tão pouco, ir ao café num instante e, ainda por cima, regressar tão friorento e com os pés tão molhados. Passou, então, a fazer café em casa, numa máquina que possuía há anos e que raramente utilizava.
A noite, quando chegava a casa, a mulher afligia-se de o ver ainda de pijama e com a barba por fazer.
«Vê lá se te vestes e vais arejar», dizia-lhe ela, preocupada.
Cardoso franzia, ao de leve, as sobrancelhas, chegava-se até à janela, alongava os olhos rua fora, através dos vidros, e remoía: «Que raio de inverno que este ano temos!...»
*
A casinha de bonecas para a neta meteu projecto de papel, lápis e régua. Durante várias tardes, desenhou e apagou. Insatisfeito, voltou a desenhar, corrigiu, retocou. Finalmente, olhou com prazer o esboço do brinquedo. Não estava nada mal, não senhor!... Meteu as mãos nos bolsos e assobiou o ritmo alegre de uma música conhecida. Era um hábito muito dele: quando acabava qualquer coisa que lhe tinha exigido esforço ou quando chegava a qualquer conclusão ou decisão, metia as mãos nos bolsos e assobiava. Lá na empresa era a mesma coisa. As vezes calhava ter à frente uns textos e uns títulos para montar numa página de jornal que não cabiam ou não jogavam bem. Ficava a olhar para aquilo, a ver mentalmente as várias hipóteses que tinha, as várias decisões que podia tomar. Reduzir? Passar a outro corpo? Alinhar tudo à esquerda? Ficava-se a pensar e depois, num relâmpago, via ali, inteirinha, a solução de todo o problema. Assobiava, aliviado e feliz, e jogava-se ao trabalho.
Orgulhava-se de sempre ter sido habilidoso. Quando aparecia algum trabalho mais difícil ou complicado lá na empresa, já sabia, era a ele que o entregavam. O subchefe de Redacção, Joaquim Teodoro, conhecido entre o pessoal pelo “bulldozer”', numa provável dupla homenagem ao físico entroncado e à “delicadeza” arrasadora do feitio, era ainda mais parco de elogios que de sorrisos. Era irascível, aquele Teodoro!... E exigente, exigente até ao pormenor!... Por isso, um elogio vindo da boca dele tinha mais peso que uma dúzia numa boca qualquer. Parecia que ainda o estava a ver... No fecho do jornal, lá estava ele na montagem, ao lado dos gráficos, possante e carrancudo, respirando ruidosamente sobre as páginas quase prontas do jornal, amassando entre os lábios um cigarro esquecido e meio apagado. De vez em quando, explodia num grito troante como um canhão: «Isto aqui não presta!». E quando algum gráfico, menos habilidoso ou mais desajeitado, tardava no arranjo pretendido ou na emenda necessária, logo os olhos de Teodoro, agitados, varriam toda a montagem à procura de Cardoso. E quando ele chegava perto, o “bulldozer” acalmava um pouco e pedia, numa impaciência suplicante: «Oh Cardoso, salve-me isto aqui.»
Tinha sido o subchefe de Redacção o primeiro a abraçá-lo na festa em que comemoraram os cinquenta anos do jornal. Tinha sido uma festa linda!... No fim do almoço, o Director falou que ia lembrar alguns nomes, entre presentes e ausentes, cujo trabalho e dedicação muito tinham contribuído para que aquela casa e aquele jornal fossem o que eram. E com que surpresa Cardoso ouviu o nome dele ser chamado! Nem queria acreditar!... E, depois de ter recebido das mãos do Director uma lembrança comemorativa - uma gravura com o nome do jornal dentro de uma caixa almofadada - quando já voltava para junto dos colegas gráficos, sentiu uns braços fortes que o apertavam e uma voz que lhe segredou, numa rudeza mesclada de emoção: «Você merece, oh Cardoso». Era Joaquim Teodoro, o ”Bulldozer”. Ele ainda retorquiu: «Gosto de caprichar no trabalho». E, se não fosse porque um homem não chora, e muito menos um homem da idade dele, ah, naquele momento tinha deixado que lhe assomasse aos olhos uma lagrimazinha...
(continua)
anamar - 1989
Publicado por vmar em janeiro 4, 2004 03:02 PMAmanhã há mais? Venha!
Um abração do
Zecatelhado
Amanhã há mais!
....e depois...e mais não digo....
pois, pois...
jinhos.